domingo, 9 de setembro de 2007

Escrevi essa canção baseando-me no livro de Apocalipse, no capítulo 2, versículos 3, 4 e 5. Ela será título e tema do novo CD que gravaremos em São Paulo no dia 12 de Julho. Ao meditar nesse texto, confesso que fiquei realmente muito impressionada com o fato de uma Igreja tão elogiada, como a de Éfeso, ter recebido palavras tão duras de repreensão e advertência. Você já deve conhecer essa passagem, que diz:
“Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua perseverança; sei que não podes suportar os maus, e que puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são e os achaste mentirosos; e tens perseverança e por amor do meu nome sofreste, e não desfaleceste. Tenho porém, contra ti, que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres”.
Que palavras impactantes! Quem não gostaria de ouvir o Senhor dizer que reconhece o trabalho, a perseverança, os sofrimentos que a pessoa tem suportado por amor do nome d’Ele? Sim, o Senhor via todas essas coisas boas na vida dos nossos irmãos de Éfeso. Eles não desfaleceram em meio a tantas provas pelas quais haviam passado. Eles se mostravam duros contra o pecado na vida uns dos outros. Eles não aceitavam a mentira e desmascaravam os falsos apóstolos. Eles não suportavam os homens maus.
Mas todas essas qualidades, tão fortes nos efésios, pareceram desabar diante de uma sutil realidade. Digo sutil porque Deus via o que estava encoberto, escondido no interior. Ele via algo que poderia passar despercebido aos olhos humanos, mas não aos Seus. Apesar de continuarem frutíferos em suas boas obras, eles haviam deixado o primeiro amor. Eles haviam abandonado aquele afeto interior que move o coração apaixonado, o coração que encontra o outro alguém tão desejado e, motivado por este amor, faz todas as coisas levemente.
Quando li isso, me deparei com uma verdade maravilhosa e, ao mesmo tempo, estarrecedora. O Senhor dá muita importância aos nossos afetos por Ele. Ele valoriza muito nossa relação de amor, de paixão para com Ele, e isso é lindo! Ele dá mais valor a isso do que possamos imaginar! Afinal, para Ele, todas as obras, todo o sofrimento e perseverança dos efésios, pareciam ser como nada diante desta ausência de amor apaixonado. Para Ele, o que importa é uma atitude interior encharcada de afeto, e que, é claro, frutifique exteriormente em boas obras. Mas Ele não valoriza apenas o que pode ser visto.
Se não houvesse um arrependimento genuíno, o esfriamento do primeiro amor chegaria ao extremo de extinguir a Igreja de Éfeso para sempre. Infelizmente, vemos que é possível uma pessoa, um ministério, ou uma Igreja, continuarem servindo a Cristo, por um tempo, ainda que movidos por outras coisas que não o amor apaixonado. Não quer dizer que deixaram de amar o Senhor, mas a pureza e o fogo do primeiro amor se esfriaram. É possível servi-Lo, andar em santidade, e abundar em boas obras, ainda que o primeiro amor tenha se desvanecido. Mas isso só pode durar por um tempo. Quando o primeiro amor se vai, aos poucos o prazer se vai, e a obrigação entra na relação, destruindo-a completamente. Sem o primeiro amor, a sentença é a destruição.
magine uma mulher que trabalha em um emprego cansativo e enfadonho. Ela se apaixona por um homem e se casa com ele. Ela prefere abrir mão do emprego e passa a trabalhar o dia inteiro nos afazeres do seu lar. O trabalho que ela faz agora não é menos cansativo que o anterior, e, algumas vezes, chega a ser até mais enfadonho que o outro. Mas, quando lhe perguntam se está trabalhando, ela responde que não. Afinal, cuidar da casa, das coisas do marido, para ela não são trabalho. São prazer. Ela é movida pelo amor apaixonado, enfim, pelo primeiro amor.
Mas imagine esta mesma mulher se esfriando em seu primeiro amor pelo marido. Ela começa a achar tudo chato. Ela pode continuar lavando, passando, cozinhando muito bem. Pode continuar sendo uma dona de casa zelosa pela limpeza e organização do seu lar. Mas, se víssemos o estado interior do seu coração, saberíamos que aquelas obras não são mais puras como eram antes. Elas estão impregnadas de obrigação. O relacionamento dela e do esposo, se não for convertido ao primeiro amor, estará sentenciado ao fracasso.
A expressão “deixaste” ou “abandonaste” o primeiro amor, no grego, é “aphekas”, que significa “partir”, “ir embora”, “relaxar”, “dispensar”, e era utilizada para indicar “repúdio” ou “divórcio”. Como diz R. N. Champlin: “É possível a um crente ter sido cheio do Espírito Santo, mas no entanto, gradualmente, ir cedendo aos apelos da carne, do orgulho pessoal e dos desejos mundanos. Nesse caso, o crente se divorcia daquilo que anteriormente lhe era precioso, não menos do que se dá no caso do homem que perde paulatinamente o amor pela mulher que, antes, era sua “noiva querida”, e mais algum tempo percebe que deseja separar toda vinculação que tem com ela, usualmente com a finalidade de buscar outra mulher. Acabará por encontrar alguém ou alguma coisa com que satisfaça o seu desejo, porém, isso sucederá tão somente porque ele se divorciou, no coração, daquela a quem antes amava realmente.”



Que desgraça é o fim de um casamento! Que sentença terrível tem o abandono, o divórcio do primeiro amor! Os cristãos de Éfeso, ainda que tenham se arrependido e voltado à prática das primeiras obras, àquelas singelas e puras, motivadas pelo primeiro amor, certamente, não conseguiram permanecer nelas. Aconteceu exatamente como o Senhor havia advertido. Eles não conseguiram sustentar as obras sem o primeiro amor. Aliás, como disse Goethe: “O amor concede em um momento o que o labor dificilmente obtém em um século”.
Hoje, Éfeso está em ruínas. Essa cidade, que havia sido a capital do cristianismo oriental, foi perdendo totalmente sua distinção. O cristianismo saiu do Oriente para o Ocidente, deixando aquela região em trevas, pois foi removido o candeeiro, a luz da Igreja de Cristo. Um escritor que visitou o local disse que: “Seu candeeiro foi removido do seu lugar por séculos. A esquálida vila mulçumana mais próxima do antigo lugar da cidade não conta com um único crente, em sua insignificante população. Seu templo é uma massa de ruínas disformes; seu porto é uma poça tomada pelos juncos. As galinhas abundam em meio aos charcos estagnados e pestilentos, e a malária e o esquecimento reinam supremos sobre aquele lugar, onde uma antiga civilização resplandeceu, em meio a cenas das mais grosseiras superstições e dos pecados mais degradantes” (Farrar, Vida e Obra de Paulo, p. 43, 44).
Nós temos aprendido a responsabilidade da Igreja, do povo de Deus, de se converter dos seus maus caminhos, a fim de que o Senhor venha sarar a terra (II Crônicas 7:14). Sabemos que a culpa é da Igreja se a nação, se o planeta, estão como estão. O pecado da Igreja de Éfeso era tão sutil, mas tão fatal, que fez morrer todas as grandes obras deles. Como uma peste, esburacou o que haviam edificado com suor e lágrimas. O abandono do primeiro amor ao Senhor Jesus destruiu a beleza de uma Igreja, de uma cidade, de toda uma região que anteriormente brilhou.
Quando o Espírito Santo nos fala hoje acerca desta passagem das Escrituras, precisamos levar a sério e atender à Sua doce e suave voz. Ele nos convida a olhar atrás, no caminho da nossa vida, e procurar onde foi que caímos, onde foi que erramos e abandonamos nosso primeiro amor ao Mestre. Precisamos parar e sondar nosso coração a fim de que nos seja revelado o lugar onde o veneno da frieza e da independência se abrigou.
A sós com o Senhor, precisamos nos arrepender amargamente e pedir que Ele mude nosso coração outra vez. É necessário deixar que o Espírito Santo opere um milagre em nosso interior. Ele vai arrancar a religiosidade e demais motivações erradas que nos levavam a servir, a trabalhar para Deus, e vai reacender a chama pura do primeiro amor. Esse amor deve ser a força motivadora de tudo o que fazemos para Ele, e que se reflete no amor e serviço aos nossos semelhantes. Nada mais pode nos motivar, senão estaremos fadados ao fracasso e destruição.
Quando o primeiro amor é rejuvenescido dentro de nós, voltamos às primeiras obras, que podem ou não ser diferentes das que estávamos fazendo. Mas a principal mudança está no nosso coração. Nós estamos apaixonados pelo Amado Noivo e, por Ele, fazemos tudo com devoção e não por obrigação ritualística, religiosa. Como disse o escritor Newell: “A religião cristã pode tomar o lugar da devoção pessoal ao Noivo” e é isso que não queremos.
Como já disse, estamos nos aproximando de mais uma gravação do Ministério de Louvor Diante do Trono. Temos trabalhado muito, em tantos projetos, sonhos que vão sendo realizados. Um grande edifício está sendo levantado, mas, como estão as estruturas? Será que temos nos protegido contra as pragas que destroem o interior da construção? Precisamos voltar, e voltar sempre, ao motivo único de tudo o que fazemos: Jesus, o amado de nossas almas.
Como em um relacionamento conjugal, figura usada pelo próprio Deus nas Escrituras, precisamos constantemente nos arrepender de qualquer esfriamento da paixão. Precisamos investir em nosso relacionamento com Ele com a comunhão diária, o compartilhar dos segredos, sonhos, angústias, enfim, a manutenção e o crescimento da intimidade com o amado Noivo é essencial.
Nos últimos tempos, Deus tem falado muito comigo acerca do Diante do Trono e da Igreja da Lagoinha usando a figura de uma árvore. Os membros do grupo se lembram da palavra de advertência que recebemos na história de Nabucodonosor, encontrada no livro de Daniel. E, agora, mais uma vez, Deus me fala sobre a árvore.
Estudando esse texto, cheguei ao comentário de Seiss, que trata a respeito da Igreja de Éfeso, e que hoje nos fala a cada de nós novamente: “O aspecto externo da árvore continuava belo e bem proporcionado como sempre, mas mofo e decadência se tinham instaurado no âmago.”
Assim como Jesus, falando aos nossos irmãos efésios, os chamou ao arrependimento e prometeu vitória ao se converterem, eu hoje dou um grito, um brado que ecoa através destas páginas: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus”. (Apocalipse 2.7.) Como escreveu Francis Thompson, em um poema intitulado “O retrato dela”:
Um triste músico...A tocar a ouvidos alheios, que não davam valorÀ música não compreendida vinda do céu.
Espero que você ouça. Senão...
Ana Paula Valadão BessaMinistra e líder de louvor do Ministério de Louvor Diante do Trono.

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